Uso do método Wolbachia como aliado no controle de doenças transmitidas pelo Aedes é debatido em workshop para jornalistas

O conceito de arboviroses, seus aspectos clínicos e o uso do método Wolbachia como aliado no controle das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como a dengue, zika e chikungunya, foi tema de workshop voltado para jornalistas e comunicadores promovido pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), em parceria com o Word Mosquito Program (WMP-Brasil) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O encontro realizado na noite desta segunda-feira (27), no auditório do Bahamas Suíte Hotel, em Campo Grande, reuniu profissionais dos principais veículos de comunicação de Mato Grosso do Sul e que atuam em assessorias de imprensa de instituições públicas e privadas.

A superintendente de Vigilância em Saúde da Sesau, Veruska Lahdo, abriu o ciclo de palestras trazendo informações sobre o conceito de arbovirose e suas formas de controle.

“Arboviroses são as doenças causadas pelos chamados arbovírus, que incluem o vírus da dengue, Zika vírus, febre chikungunya e febre amarela. A classificação arbovírus engloba todos aqueles transmitidos por artrópodes, ou seja, insetos e aracnídeos (como aranhas e carrapatos)”, esclareceu.

Existem 545 espécies de arbovírus, sendo que 150 delas causam doenças em seres humanos.

“Apesar de a classificação arbovirose ser utilizada para classificar diversos tipos de vírus, como o mayaro, meningite e as encefalites virais, hoje a expressão tem sido mais usada para designar as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti”, complementa.

O primeiro caso dengue tipo I foi registrado em Campo Grande em 1986. Dez anos depois se identificou o sorotipo DEN 2, que foi responsável pela epidemia que ocorreu em 2002, chegando aproximadamente a 13.000 notificações. Em 2005 começou a circulação pelo sorotipo DEN 3 e devido a existência de uma população susceptível e condições favoráveis, veio a deflagrar epidemia em 2007, com inicio em 2006. Em 2013 o sorotipo circulante foi predominantemente o DENV4.

Nos últimos 17 anos Campo Grande registrou seis grandes epidemias: 2002 /2007 / 2010 / 2013 / 2016/2019.

No ano passado, o município registrou 39.433 casos notificados de dengue e oito óbitos. Até o dia 24 de janeiro de 2020 já foram 1.195 notificações e um óbito.

“São vários os desafios no controle das arboviroses. O setor saúde, por si só, não tem como resolver a complexidade dos fatores que favorecem a proliferação do mosquito Aedes aegypti. A concomitância da circulação das três arboviroses torna tudo mais difícil por que as apresentações clínicas se confundem e tem repercussões diferentes. As arboviroses não podem ser tratadas como as outras doenças. Precisa integrar vigilância epidemiológica, assistência ao paciente, controle vetorial, integração com atenção básica, ações de campo, trabalho em conjunto vigilância sanitária, ambiental e zoonoses, ações de comunicação, de educação e de mobilização social, busca de novas estratégias no controle vetorial. Enfim, conseguir que todos esses elos sejam contemplados não é uma coisa fácil”, finalizou.

Aspectos clínicos

A atuando há décadas no enfrentamento das arboviroses em Campo Grande, inclusive com destaque nacional, a médica infectologista Márcia Dal Fabrro, trouxe informações sobre os aspectos clínicos da Dengue, Zika e Chikungunya e suas evoluções.

Segundo a médica a identificação precoce dos casos, em especial da dengue, é extremamente importante.

“O vírus da dengue causa um espectro variado de doenças que inclui desde formas inaparentes ou subclínicas, até quadros de hemorragia que podem levar ao choque e ao óbito”, complementa.

A profissional chama a atenção para os casos nas crianças que geralmente se inicia com febre alta acompanhada de sintomas inespecíficos: apatia, sonolência, recusa da alimentação, vômitos e diarréia. O exantema pode estar presente ou não.

“Nos menores de dois anos, as dores podem manifestar-se por choro intermitente, irritabilidade, apatia e recusa de líquidos, o que pode agravar a desidratação”, diz.

Método Wolbachia

O método de controle das arboviroses foi desenvolvido na Austrália pelo World Mosquito Program e atualmente opera em 12 países e mais de 20 cidades. Campo Grande é um dos três municípios brasileiros com mais de 500 mil habitantes que está recebendo a iniciativa.

O entomologista e gerente de projetos do WMP Brasil, Gabriel Sylvestre, falou aos jornalistas sobre a o funcionamento do método, além da importância do engajamento comunitário e o impacto no controle das arboviroses.

No Rio de Janeiro/RJ e Niterói/RJ, o Método Wolbachia é implementado desde 2014 e já existem dados preliminares que apontam a redução das doenças.

“Antes das liberações, fazemos o engajamento da população, que é uma fase em que dialogamos com os moradores para apresentar como o Método Wolbachia funciona e tirar as dúvidas”, explica .

De acordo com o gerente do WMP Brasil/Fiocruz, as liberações de mosquitos ocorrerão em fases e deverão ocorrer até 2023 para cobrir todo o município. “Cada rodada de liberação dura cerca de 16 a 20 semanas. Todos os mosquitos soltos têm Wolbachia que é uma bactéria que só vive dentro da células dos mosquitos, ou seja não pode ser transmitidas para seres humanos e animais.”

Sylvestre ainda enfatiza que o Método Wolbachia não envolve modificação genética e é uma medida complementar. A população e o governo devem continuar a fazer todas as ações para o controle da dengue, zika e chikungunya.

Por fim, o coordenador de comunicação do WMP Brasil/Fiocruz, Guilherme Costa, abordou a cobertura jornalística sobre arboviroses e o Método Wolbachia.

A realização do workshop contou com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur), do hotel Bahamas e da rede de supermercados Comper.