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Ex-funcionário do consulado do Reino Unido em Hong Kong diz ter sido torturado na China

Publicado em: 11/20/2019 - 9:21

Simon Cheng contou à BBC que foi algemado e encapuzado e que lhe vendaram os olhos, tendo sido obrigado a ficar de cócoras diante de uma parede durante horas a fio, sendo espancado se se mexesse. Cheng revelou também ter sido sujeito a privação de sono e obrigado a cantar o hino nacional chinês para se manter acordado. Pequim rejeita acusações

Simon Cheng, um ex-funcionário do consulado do Reino Unido em Hong Kong, disse à BBC que foi torturado na China e acusado de incitamento da agitação política naquela região administrativa especial chinesa. Cidadão de Hong Kong, Cheng trabalhou para o Governo britânico durante quase dois anos e esteve 15 dias detido numa viagem que fez à China continental em agosto.

“Fui algemado, vendaram-me os olhos e fui encapuzado”, revelou Cheng, de 29 anos, numa entrevista publicada esta quarta-feira. “Disseram que trabalhavam para os serviços secretos e que não havia direitos humanos e foi então que começaram a tortura”, acrescentou à estação britânica.

Cheng tinha como principal função atrair investimento para a Escócia entre a comunidade empresarial chinesa, o que o obrigava a fazer deslocações frequentes à China continental. No entanto, com o início das manifestações em massa em junho, voluntariou-se para desempenhar uma função adicional, recebendo horas extraordinárias por isso.

“O consulado britânico instruiu os funcionários a reunirem informação sobre o estado dos protestos”, contou. Com o consentimento do consulado, Cheng inscreveu-se nalguns grupos nas redes sociais, através dos quais os manifestantes coordenavam as ações de protesto. A sua função não era de todo dirigir as ações mas apenas observar, como, de resto, muitas embaixadas fazem, insistiu.

“ELES BATIAM NAS PARTES ÓSSEAS, COMO OS TORNOZELOS, OU EM QUALQUER PARTE VULNERÁVEL”
Contudo, em agosto, com emails no seu telefone que o ligavam ao acompanhamento dos protestos, Cheng foi colocado num comboio, transportado de volta para a cidade chinesa de Shenzhen, onde participara numa conferência de negócios, e entregue a três agentes à paisana da Polícia de Segurança Nacional da China, segundo o seu relato.

“Eles queriam saber qual era o papel do Reino Unido nos protestos de Hong Kong. Perguntaram que apoio, dinheiro e equipamento estávamos a dar aos manifestantes”, revelou ainda. Cheng diz ter sido obrigado a adotar posições desconfortáveis – como, por exemplo, ficar de cócoras diante de uma parede – durante horas a fio, sendo espancado se se mexesse.

“Eles batiam nas partes ósseas, como os tornozelos, ou em qualquer parte vulnerável.” Diz também ter sido sujeito a privação de sono e obrigado a cantar o hino nacional chinês para se manter acordado. Cheng afirmou ainda acreditar não ter sido o único cidadão de Hong Kong a receber aquele tratamento.

CHEFE DA DIPLOMACIA BRITÂNICA CONVOCA EMBAIXADOR CHINÊS, PEQUIM RECUSA
Na sequência da entrevista à BBC, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Dominic Raab, convocou o embaixador chinês no Reino Unido. “Estamos indignados com os maus tratos sofridos por Cheng enquanto esteve detido na China continental. E deixámos claro que esperamos que as autoridades chinesas analisem [a situação] e responsabilizem os culpados”, disse o governante.

Um porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros fez entretanto saber que “não aceitariam” a convocatória e que, em vez disso, convocariam o embaixador britânico para “expressar a indignação” de Pequim. “Esperamos que o Reino Unido seja prudente e pare de interferir em Hong Kong e nos assuntos domésticos da China porque isso acabará apenas por prejudicar os interesses do Reino Unido”, acrescentou o porta-voz.

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