Produtor que vive há 64 anos no Pantanal diz nunca ter visto seus bezerros ameaçados

Desde propriedades particulares até áreas de estudo científico tem tido prejuízo com as queimadas no território mato-grossense

O drama da maior série de queimadas no Pantanal pode ser visto bem longe das matas e várzeas da região e foi presenciado pelo Estadão. No centro de Cuiabá, em Mato Grosso, as máscaras de pano anticovid-19 não evitam o cheiro forte da nuvem cinzenta sobre a cidade. Os termômetros registram 33ºC. O clima é abafado e quente. Neste fim de semana, a fumaça dos incêndios no bioma e na Amazônia começou a chegar aos Estados do Sudeste e do Sul.

Pela estrada até Poconé, primeiro município da região pantaneira a partir da capital mato-grossense, é possível ver a devastação do fogo que consome a vegetação nativa desde julho.

Também fica visível a ausência de ações intensivas do poder público para conter os focos.

A destruição atinge desde propriedades particulares a áreas de grande interesse científico e ambiental. O governo de Mato Grosso estima que mais da metade dos 108 mil hectares do Parque Estadual Encontro das Águas, onde está a maior concentração de onças-pintadas no planeta, foi queimada. A unidade ecológica fica na localidade de Porto Jofre, a 290 quilômetros de Cuiabá. É dali que saíram, no começo da semana, as primeiras imagens de onças com patas feridas e enfaixadas.

Queimadas numa região de produção de bois e secas prolongadas são corriqueiras. As deste ano, porém, alcançaram dimensão avassaladora e inédita para sitiantes, barqueiros e boiadeiros que carregam a experiência de uma vida inteira enfrentando as estiagens.

Pequenos pecuaristas revelam o medo de perder a fonte de renda porque pastos que já eram modestos foram reduzidos a cinzas.

Montado em um alazão, o produtor Celso Rondon vistoria queimadas nas redondezas de Poconé. Além do sobrenome e dos traços físicos, o encanto com os temas do sertão também o assemelha ao marechal Cândido Mariano, desbravador do Centro-Oeste. Com a sabedoria de quem vive há 64 anos no Pantanal, diz nunca ter visto sua pequena criação de bezerros ameaçada.

O Estadão encontrou Rondon no fim da Rodovia Transpantaneira. A estrada de 145 quilômetros começa logo depois do perímetro urbano de Poconé. É o início do Pantanal mato-grossense – dos 150 mil quilômetros quadrados do bioma no território brasileiro, 65% estão em Mato Grosso do Sul e 35% em Mato Grosso. O bioma ocupa ainda áreas da Bolívia e do Paraguai, nossos vizinhos sul-americanos, em um espaço total que equivale ao Estado de São Paulo.

Às margens do caminho de terra e cascalho, a paisagem pantaneira se revela com a presença dos primeiros jacarés e tuiuiús – e com as primeiras grandes áreas em cinzas. Corpos de bichos de pequeno e médio porte que não conseguiram escapar do fogo estão por todos os trechos da estrada.

É um percurso formado por uma centena de pontes de madeira, muitas em péssimo estado de conservação. As estruturas são desafiadoras para a segurança de moradores e viajantes. Com o incêndio, o que era inseguro ficou ainda mais. O fogo derrubou a sustentação de algumas pontes e não há nenhum aviso a respeito.

Na sexta-feira, uma das estruturas sem desvios não resistiu ao peso de um ônibus. O fluxo foi interrompido. A dica dos pantaneiros para evitar acidentes é explorar ao máximo os desvios que existem ao lado das pontes, o que aumenta o tempo da viagem.

Em alguns momentos, o fogo ameaçava “abraçar” a estrada para chegar ao outro lado e o mais prudente era acelerar o carro.

O Estadão acolheu a orientação quando adentrou a Transpantaneira, por volta das 13 horas da quinta-feira. No caminho, colheu relatos sobre animais em apuros por parte de brigadistas, veterinários e nativos. Militares locais disseram que o ponto mais crítico estava aos fundos de uma fazenda vizinha ao Parque Encontro das Águas.

Duas dezenas de bombeiros tinham a atribuição de não permitir que o fogo atravessasse um acesso preparado desde a véspera.

A estratégia, confidenciada pelos bombeiros, não era a de pôr fim ao fogo – uma missão considerada impossível diante da falta de estrutura. Está de bom tamanho tentar proteger apenas as áreas mais sensíveis e deixar que a natureza decida quando quer por fim às queimadas, afirmaram em caráter reservado à reportagem. O fogo que rompe à noite deixa rastros pela manhã. A fumaça forma uma neblina desde as primeiras horas do dia. O cheiro da queimada e a fuligem são permanentes, o que compromete uma frente de ação contra os incêndios.

Em Porto Jofre, quatro aeronaves agrícolas foram deslocadas para lançar, a cada sobrevoo, 2 mil litros de água sobre focos de incêndio. Sem visibilidade segura, os aviões permaneceram em solo na quinta-feira e na sexta. “Com essa visibilidade de 100 metros não tem condições de subir”, relata o piloto privado Gustavo Borges, 33 anos. “Operamos aqui dois dias, mas já temos dois dias sem operar.”

O incêndio é mais um golpe para a indústria do turismo que já vinha mal por causa da covid-19. Com menos clientes, os proprietários podem, no entanto, dedicar todo o tempo e esforço para proteger a região e ajudar a resgatar animais. Ao chegar na madrugada de quinta-feira a Porto Jofre, um povoado com iluminação noturna precária, o Estadão não encontrou pousadas abertas. Após alguma procura e campainhas tocadas em vão, restou adentrar a varanda de uma delas e pernoitar em redes.

Segundo o Ministério da Defesa, estima-se que os focos de incêndio concentrados em Poconé, Barão de Melgaço (MT), e uma área em Porto Jofre, já tenham passado por redução superior a 72%, conforme relatório emitido em 23 de agosto pelo Corpo de Bombeiros de Mato Grosso.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Por Chico Oliveira/Tereré News   Empresa Jornalística    ouça este conteúdo   Edição Impresa.