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A China quer mais filhos. E as mulheres?

Publicado em: 07/06/2021 - 3:41

Os pais de Rou Rou, de 28 anos, nunca se questionaram sobre se queriam mais um filho. Era proibido e ponto final. A política do filho único, que vigorou durante 40 anos na China, impunha multas pesadas ―e às vezes abortos, esterilizações e muito sofrimento― aos casais que burlassem o veto sem fazer parte de algum dos grupos populacionais isentos, como minorias e residentes em áreas rurais cujo primeiro filho fosse uma menina. Agora, há cinco anos, o Governo autoriza todos os casais a ter dois filhos, e acaba de anunciar que vai permitir até três. É um salto, em cinco anos, do filho único à família numerosa, com um objetivo: paliar o rápido envelhecimento da população. Rou Rou e as mulheres de sua geração têm uma liberdade que foi negada às duas gerações anteriores. Mas, embora possam se perguntar se querem ter mais filhos, a resposta costuma ser “não”. O desejo das jovens, principalmente nas cidades, de desenvolver sua carreira e o medo de ser discriminadas no mercado de trabalho por ter filhos explicam, em parte, essa resposta. Assim, vem ocorrendo uma rápida queda de casamentos e nascimentos.

“Não vou ter mais de um, de jeito nenhum. E, de qualquer forma, será para agradar minha mãe, que me pressiona. Ela quer ter netos, quer ser como o resto das pessoas”, diz Rou Rou, que trabalha como editora, enquanto bebe uma cerveja ao sair do trabalho em um dos barzinhos que proliferam no centro de Pequim. “Não tenho pressa. Por enquanto, não tenho tempo para pensar em ter um parceiro estável ou um filho. Quero me concentrar em desenvolver minha carreira, que me apaixona, mas que me ocupa todas as horas do dia. Quero aprender tudo sobre o mundo editorial. Planejo lançamentos de livros, viajo para eventos promocionais por toda a China, falo com escritores… Não é algo que eu possa fazer se tiver de cuidar de uma casa, um marido e um filho.”

No oeste de Pequim, Daisy, de 36 anos, trabalhadora do setor audiovisual, tem uma opinião semelhante: “Um, no máximo, se é que decido ter um. Não tenho nenhuma pressa. Quero aproveitar a vida e ter tempo para mim. Gosto de dançar, sair com meus amigos… Na China é preciso dedicar muito tempo à educação das crianças para que possam ser competitivas na sociedade. Elas têm muitas tarefas, aulas complementares, é preciso levá-las de um lugar para outro. E custa muito dinheiro”.

Entre as jovens chinesas das grandes cidades, com um maior nível de educação em uma China mais próspera, e empoderadas por não ter precisado competir com irmãos do sexo masculino devido à política do filho único, essas opiniões se repetem com certa frequência. Daisy, de longos cabelos negros, tem namorado. Rou Rou, de óculos dourados e cabelos médios, não. Ambas pediram para ser identificadas apenas por seus apelidos.

A trabalhadora audiovisual já entrou naquela que, para a mentalidade chinesa mais conservadora, é uma “idade perigosa”, a faixa dos 30 anos; a editora está prestes a fazer isso. A partir dos 30 anos, certas convenções sociais ditam que as jovens ainda solteiras se transformam em sheng nü, algo como “mulheres deixadas para trás”, para as quais começa a ser tarde para casar e ter filhos, durante séculos a grande obrigação social e familiar de qualquer pessoa na China.

Essa pressão ainda existe. As reuniões familiares costumam se transformar em um momento de tortura para os jovens solteiros, aos quais seus parentes mais velhos, incluindo seus próprios pais, perguntarão insistentemente quando pensam em se casar. O parceiro ideal para os pais é “um funcionário, alguém com trabalho estável e seguro”, assinala a editora. Ainda há pais que apresentam a seus filhos possíveis candidatos a cônjuge. Algumas vezes, com sucesso. Outras, não. “Uma vez conheci um cara por mediação da minha mãe… A primeira coisa que ele me perguntou foi sobre a saúde de meu útero. Desse jeito, como se eu fosse um animal para reprodução. Sutil, né?”, ri Rou Rou.

A cada ano nascem menos bebês na segunda maior economia do planeta, apesar de a política do filho único ter acabado em 2016. No ano passado, segundo os dados oficiais do censo, nasceram apenas 12 milhões em uma população total de mais de 1,4 bilhão de pessoas. É o número mais baixo desde a fome do Grande Salto para a Frente, entre 1959 e 1963. Além disso, a população em idade ativa diminuiu em 40 milhões desde 2010, segundo o censo do ano passado, o último realizado. E a taxa de natalidade (1,3) é insuficiente para sustentar uma população envelhecida.

Além de problemas como o alto preço da moradia, o custo da educação infantil e as longas jornadas de trabalho ―argumentos usados também pelos homens―, algumas mulheres citam o risco de discriminação no emprego para defender a ideia de ter apenas um filho, ou nenhum. Acreditam que “a política do terceiro filho pode reduzir as oportunidades para as mulheres que quiserem seguir carreira”, segundo Rou Rou. Os homens praticamente não têm licença-paternidade, enquanto a licença-maternidade pode chegar a seis meses e seu custo acaba sendo sentido na empresa, seja pelo pagamento de seguros ou do salário da trabalhadora durante sua ausência. “Isso desestimula a contratação de mulheres”, afirma Yaqiu Wang, pesquisadora do Human Rights Watch para a China e autora de um relatório cujo título pode ser traduzido como Tire licença-maternidade e a substituirão: a política de dois filhos da China e a discriminação por gênero no trabalho.

Mas os efeitos negativos podem ultrapassar o âmbito trabalhista. Com o aumento do número de filhos permitidos, existe o risco de que “a expectativa social seja que as mulheres têm de ser mães, e se veja com maus olhos aquelas que não têm filhos, ou têm só um, ou aquelas que preferem se concentrar em suas carreiras profissionais”, diz Rou Rou.

Nesse sentido, o relatório do Human Rights Watch cita a existência de “uma ampla propaganda na China para encorajar as mulheres ―mas não os homens― a ficar em casa e criar filhos”. Essa propaganda, diz o documento, inclui artigos em veículos de comunicação estatais e cartazes em vários lugares do país que incentivam a ter um segundo filho.

No final, lamenta a jovem editora enquanto termina sua cerveja, “as mulheres sempre pagam o pato. Façamos o que façamos, saímos perdendo. Se temos filhos, pagamos no âmbito trabalhista. Se não temos, pagamos no âmbito social”.

Daisy e Rou Rou não têm nenhuma pressa em se casar. “Antes minha mãe me pressionava, agora não. Ela viu que pessoas da minha geração que se casaram muito cedo já estão divorciadas. E agora prefere me ver livre e feliz”, conta Daisy, que no momento não planeja se casar com seu namorado, embora também não descarte essa possibilidade. “Todas as minhas amigas de infância em minha cidade natal no centro da China se casaram cedo, e agora muitas lamentam. Não têm tempo para elas, se não estão trabalhando têm de cuidar de seus filhos, de seus maridos e de sua casa. As tarefas domésticas sobram quase sempre para as mulheres.”

As mulheres têm isso tão internalizado em uma sociedade que continua dando preferência a ter um filho do sexo masculino, que Rou Rou, quando enumera sua lista de requisitos para o homem perfeito, não inclui a divisão das tarefas domésticas. Pressupõe que, se encontrar seu parceiro ideal, esse trabalho caberá a ela. Assim como cuidar de um possível filho: “Assumo isso, é verdade, prefiro encontrar um homem maduro, independente, com quem compartilhe interesses, mas que também tenha sua própria vida, e com quem possa conversar sobre as coisas, a alguém que cuide da casa, mas com quem não possa ter uma conversa interessante”. A opinião de Daisy é semelhante. “Minhas amigas me dizem que têm dois filhos. Aquele que deram à luz e aquele com quem se casaram”, brinca.

 

Caem os casamentos

Com a rápida evolução da sociedade chinesa para um modelo desenvolvido, o desinteresse em estabelecer uma família tradicional está cada vez mais difundido entre os jovens das grandes cidades. O número de casamentos está caindo vertiginosamente, enquanto o de divórcios está aumentando. No ano passado, só 8,1 milhões de casais registraram seu casamento, uma queda de 12% em relação a 2019 e de 40% em relação a 2013, o último ano em que foram quebrados recordes matrimoniais.

Na era em que é mais provável que namorados se conheçam pelo Tinder (ou por seus equivalentes chineses) do que pelo método tradicional de redes familiares, a idade nupcial é cada vez maior. Hoje, a maioria dos casamentos ocorre na faixa de 25 a 29 anos, enquanto há uma década ocorria entre 20 e 24 anos. Noivos com mais de 40 anos também deixaram de ser uma raridade.

Por outro lado, 8,6 milhões de casais se divorciaram, quase o dobro do ano anterior. Para evitar essa tendência, neste ano entrou em vigor uma lei que dificulta o rompimento oficial: é necessário um mês de espera e que os dois cônjuges compareçam fisicamente para confirmar a separação.

“Dificultaram o divórcio e agora relaxam a política de natalidade para que tenhamos mais filhos. Que coordenação, hein?”, ironiza Rou Rou. Mas ela concorda que os divórcios são cada vez mais frequentes. “É muito comum que, quando uma mulher se vê muito absorvida pelo trabalho, o marido acabe pedindo a separação. Muito, muito comum”, observa. E reflete sobre outro possível fator: “Talvez tenha a ver com o fato de sermos filhos únicos. Às vezes não podemos aceitar que o outro pense ou faça coisas de forma diferente. Nossos pais sim, mas para nós é mais difícil. Somos mais egoístas”.

 

 

Fonte: EL PAÍS 



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